Uma reflexão sobre o caminhar coletivo em “Cuiabá 300 sombrinhas”


Fernanda Pavan

Estranhamento. Incompreensão. Passeio de sombrinha, à deriva... perda de tempo? Foram esses os primeiros pensamentos que me vieram à mente quando soube da atividade proposta. Achei bem diferente essa maneira de comemorar os 300 anos de Cuiabá... no calor, expostos ao sol, andando por lugares que eu ainda tinha precisado passar a pé e acompanhada por um grupo de pessoas que eu tinha acabado de conhecer por ocasião de uma matéria do mestrado. Não é o que geralmente se espera de uma comemoração marcante...
Naquele momento inicial, eu não tinha consciência e nem bagagem teórica mínima para compreender a dimensão de uma proposta de intervenção artística urbana e seus surpreendentes desdobramentos; não tinha conseguido pressupor o envolvimento de tantas pessoas de áreas de atuação tão distintas num mesmo movimento para passear de sombrinhas pelo centro histórico da cidade; não fazia ideia da ânsia das pessoas pela criação de situações como esta para terem a oportunidade de se expressar e manifestar, cada uma à sua maneira, envolvidas por objetivos em comum e pensamentos coletivos semelhantes; ainda não tinha nenhuma noção de uma prática real da interdisciplinaridade e da vivência da pluralidade que ela nos permite; e muito menos imaginava como essas ações iriam me afetar, mexer com o meu sensível estético e fazer com que houvesse uma produção de sentidos e afetos tão diversos e reais. Segundo Ranciere (2011), o sensível é o tecido da experiência, as maneiras de perceber e de ser afetado.
A princípio, eu estava tão fechada no “meu mundo”, particularizado, cheio de compromissos, preocupações, horários, prazos, rotina e automação, e raramente me permiti andar à deriva – e quando a fiz, ainda não tinha sido apresentada a algumas teorias trabalhadas em aula que me deram base para expandir minhas reflexões.
Talvez a maneira mais comum de se andar à deriva atualmente seja passear pelos shoppings da cidade, na temperatura agradável do ar condicionado e com a relativa segurança que ausenta o medo de se passear até mesmo sozinho naquela localidade – e que não nos faz perceber a necessidade de se plantar mais árvores que produzam sombras para que possamos explorar a cidade através de rotas diferentes das habituais.
“Na América do Sul, caminhar significa enfrentar muitos medos: medo da cidade, medo do espaço público, medo de infringir as regras, medo de apropriar-se do espaço, medo de ultrapassar barreiras muitas vezes inexistentes e medo dos outros cidadãos, quase sempre percebidos como inimigos potenciais. Simplesmente, o caminhar dá medo e, por isso, não se caminha mais; quem caminha é um sem-teto, um mendigo, um marginal” (CARERI, 2013, p. 241)
Outra possibilidade são as caminhadas pelos parques, numa tentativa de contato com a natureza, praticar exercícios e sair momentaneamente da rotina intensa de trabalho, compromissos e exigências a que estamos impostos pelos modos de vivência contemporâneos. Ou até mesmo pelo ativo movimento atual de grupos de corridas, que usam coletivamente as ruas da cidade, muitas vezes alterando o fluxo e incomodando os motoristas de carros, que ficam alheios a observações de vários acontecimentos cotidianos, uma vez que acabam passando despercebidos por causa da velocidade do transporte automotivo.
Mas em ações como estas, ao se passear pelo shopping, caminhar pelos parques ou fazer parte de um grupo de corridas urbanas, geralmente não há intenção evidente de reflexão; são experiências que habitualmente funcionam como uma válvula de escape – onde a tentativa talvez seja exatamente a de não pensar e consequentemente não refletir sobre nada – uma alienação para aliviar o cansaço mental que está inerente à maioria da população, evidenciado pelas frequentes sofrimentos psíquicos apresentadas por grande parcela dos usuários das cidades.
Sendo assim, através da oportunidade de participar da intervenção proposta em aula, mediante a prática de um caminhar coletivo com ressignificação dos espaços e intersecções entre várias manifestações artísticas, pude perceber a grandiosidade em descobrir novos lugares a partir do ponto de vista estético-experiencial, gerando encontros e mapas afetivos. Para Salles (1998, p. 127): “está sendo, assim, estabelecido o elo entre pensamento e fazer: a reflexão que está contida na práxis artística”.
“A intervenção urbana, como situação criada na cidade por coletivos artísticos, interrompe o fluxo da padronização e do estigma, propõe outra forma de olhar e pensar sobre os espaços urbanos; instiga a participação, potencializa a criatividade dos sujeitos envolvidos no processo”. (AZEVEDO, 2013, p. 145)
E ainda:
“Desviar das rotas conhecidas e sedimentadas como mapas fixos da cidade pode subverter a geografia calculada e funcionar como um processo de desterritorialização, ou como linha de fuga, na tentativa de ensaiar devires e desabrochar potências criativas de singularização na relação com a cidade. Pode vir a ser, um exercício de reconfiguração dos modos de estar na cidade, na contramão desta subjetividade capitalística”. AZEVEDO, 2013, p.141)
Nesse processo de construção, me deparei numa comparação da nossa intervenção com a Virada Cultural que acontece todo ano na cidade de São Paulo e também em outras cidades do interior do estado de SP, onde a população ocupa intensamente as ruas e espaços das cidades durante 24h de ininterruptas apresentações e atividades culturais. Circuitos montados em determinadas áreas da cidade, a serem percorridos a pé, que permitem vivências semelhantes às que foram idealizadas no passeio de sombrinhas em Cuiabá, obviamente em suas devidas proporções. Deriva, diversidade, imprevisibilidade, variedade, ressignificações, contemplação, desvio, processos colaborativos, subjetividade coletiva. Conversas aleatórias entre as pessoas num passeio. Possibilidades de “arte relacional” do crítico francês Nicolas Bourriaud.
“Pela observação de Bourriaud, o artista sai do palco e integra o cotidiano como um cidadão interferindo na realidade, propondo reações ou colaborações na perspectiva da proximidade. A arte não é mais mero espelho, reflexo e representação da realidade, mas parte indissolúvel dela”. (D´ÂNGELO, 2011, p.48)
A partir da experiência dessa vivência incitando a reflexão, fiquei impressionada com a mobilização dos alunos e comunidade no processo de criação artística que o grupo estava construindo coletivamente para que culminasse no dia do nosso passeio de sombrinhas. Muitos olhares tocados pelo sensível, inspirando diversas manifestações em diferentes linguagens artísticas, propondo uma ressignificação dos espaços, com utilizações das construções e estruturas da cidade. Para Azevedo (2013), “é na força das intersecções entre várias artes: cênicas, artes do corpo, visuais, plásticas, performances, música, entre outras, que esses coletivos se apropriam da cidade e compartilham sensibilidades” (p. 147). Nesse contexto, D´Ângelo (2011) diz sobre o Coletivo Bijari:
“As ações do grupo buscam ser táticas em relação aos espaços públicos e independentes em relação aos circuitos formais da arte. Ao buscar esse hiato, esse oco, esse espaço indeterminado e desapropriado, age de forma a criar novos territórios políticos e poéticos (...) Devemos seguir agindo até o limite da arte e ativação do sensível” (p. 49)
                Diante disso, tive uma percepção de como a ativação do sensível dita o ritmo da caminhada individual no percurso coletivo. No momento da intervenção, fomos expostos a diversas manifestações artísticas, cada uma afetando os indivíduos de maneira distinta. Dessa forma, as pessoas paravam para apreciar por mais ou menos tempo cada uma das atividades, e isso fazia com que o fluxo de pessoas ao redor fosse sempre renovado, o que permitia o contato com diferentes pessoas em cada ponto da caminhada. Isso possibilitou diversas conversas aleatórias entre as pessoas e, dessa forma, descobri que eu e um amigo de turma moramos no mesmo prédio, que provavelmente já tínhamos nos esbarrado no elevador, que convivemos por diversos dias e horas na mesma sala de aula e na mesma academia, mas até então não tínhamos tido a oportunidade de conversar num momento de deriva, de desvio do caminho e do tempo que nos permitisse ter conversado em situações anteriores, que nos fizesse ter consciência do quanto frequentamos os mesmos lugares e não tínhamos criado vínculos e afetos fraternos, apesar de mapas urbanos em comum.
Por fim, Careri (2012) me ajudou a obter a resposta final para minha dúvida inicial: “quem perde tempo, ganha espaço”.


Referências bibliográficas
AZEVEDO, Maria Thereza Oliveira. Sombras que passeiam: poéticas urbanas, subjetividades contemporâneas e modos de estar na cidade. Revista Magistro, 2013.
CAMPOS, Martha Machado. Arte na cidade: da paisagem às dinâmicas urbanas. 2006
CARERI, Francesco. Transurbâncoa + Walkscapes tem years later. Revista Debates. UFBA, 2013.
D´ÂNGELO, Ana Cristina. Com afeto, nas cidades. Revista Página 22, São Paulo, 2011.
RANCIERE, Jacques. Aisthesis: scenes du regime esthetique de l’art. Paris: Galillée, 2011.
SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: Processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 1998.

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