Na contramão da modernidade



José Henrique Monteiro da Fonseca
Aluno especial – Programa de Doutorado ECCO
jhmonteirodafonseca@gmail.com



Caminhar na contramão do que se está posto em um tempo histórico sempre foi motivo de estranhamento, retaliações, perseguição e não absorção imediata naquele tempo daquilo que vai contrário ao que está convencionalmente estabelecido. Em todas as épocas de algum modo os considerados mais fortes em uma cultura ou era, sempre tentaram se valer sobre os considerados mais fracos e vulneráveis. Na antiguidade a cultura helenística intencionava estabelecer a fio da espada o saber Greco-filosófico sobre outros povos como se esses não possuíssem saber razoável e hegemonicamente aceito (ROSSI, 2011). Foi assim nos tempos dos feudos, quando reis e senhores das terras abusivamente cobravam impostos exorbitantes de seus servos e camponeses. Com uma proposta “pré-liberal” não foi diferente com o êxodo dos camponeses para os pontos de comércio em nome de falsas promessas de individualidade e prosperidade em nome da coisa que se chamou de Estados Nacionais; ali ironicamente aparece sutilmente o mais do mesmo porém disfarçado em outra estrutura; pois ao deixar seus modos de vida no campo, tais famílias seriam submetidas mais uma vez só que agora em nome de uma liberdade e uma liberalidade que nunca existiu somados ao fato de encararem novas crises de readaptação cultural e antropológica; não estariam mais subjugados pelo Rei ou pelo Feudo, mas agora pelo Estado e pelo Burguês.

A etapa inicial dispôs a retórica da modernidade como salvação. A salvação era focada em salvar almas pela conversão ao cristianismo. A segunda etapa envolveu o controle das almas dos não europeus através da missão civilizatória fora da Europa, e da administração de corpos nos Estados-nações emergentes através do conjunto de técnicas que Foucault analisou como a biopolítica. (MIGNOLO, 2017, p. 8)

Diante disso parece razoável aceitar que o espírito do modernismo e do colonialismo de algum modo sempre aparece enquanto sutil instrumento de domínio fazendo com que um povo com sua riqueza étnico-cultural, língua e crenças, seja violado e forçado a comprar idéias e culturas hegemonicamente estabelecidas como superior e legítimas. Tais compras forçosas, por séculos vêm sendo pagas a preço de sangue e da desolação de etnias inteiras. Propositalmente usa-se aqui a expressão “modernismo” e “colonialismo”, partindo de uma reflexão que o “ismo” denota um sintoma e uma patologia. Diante disso ousa-se pensar o modernismo e o colonialismo enquanto uma doença histórica e social, que produziu estigmas, preconceitos, racismo, xenofobias, antropocentrismos em nome da “ordem e do progresso” e de um ideal higienista burguês colonialista. Os 500 anos do Brasil e os 300 anos de Cuiabá, arrastam traços e marcas da devastação cultural e antropológica, por meio da corrupção, subjugação, assassinato da flora e fauna, escravidão e ideologias de valores invertidos e sagazes.

Anterior a toda outra coisa, a ideologia assegura, por meio de representações imaginárias, crenças coletivas e certas ideias sociais, que todos os sistemas de sociedade funcionem e durem como realidades que existiriam por si próprias, sem o concurso da ação humana. [...] a ideologia procura obter invertendo e ocultando o caráter de coisa construída, arbitrária e convencional de toda ordem social-cultural e suas instituições, e cujo efeito é a eficácia de sua dominação sobre os indivíduos, engendrada e reproduzida sem o recurso da força. (SOUSA FILHO, 2007, p. 24)

Tais ideologias são construções sociais e institucionalizadas, e atravessaram um processo de cristalização de uma ou várias idéias, criadas a princípio por um grupo sujeito (de influência às massas) e disseminada a uma coletividade assujeitada. Com o passar do tempo e dos desdobramentos sociais, tais disseminações ideológicas vêm sendo tipificadas, instituídas e “naturalizadas” como verdades absolutas, tais como: “plantemos um palmeira no lugar de uma àrvore centenária, pois a palmeira é mais clean; clean de limpa; limpa de lavada; lavada de lavagem; “lavagem de dinheiro”! Atos como esse são repetidos nos últimos três séculos legitimando o espírito do modernismo, onde sempre se apresenta colado a discursos que fomentem ideais de realidade universal e de naturalização dos objetos e do mundo; uma vez que: “Por meio da ideologia, a realidade engendra um discurso de naturalização, universalização e eternização de suas formas, de modo que sanciona, consagra, a dominação cultural-social-moral na qual ela própria se constitui enquanto experiência do viver social e coletivo”. (SOUSA FILHO, 2007).
Em nome da dominação do coletivo se sacramenta o que na verdade é invencionismo, constituído, instituído para os interesses daqueles que comungam de tal consciência sintomática do modernismo. Conceitos de verdade, de certo, de belo e estético nada mais são que idéias construídas, frutos de convenções elitizantes e construções sócio-históricas e disseminadas de geração em geração em um ciclo vicioso, pseudo-dialético e destrutivo, podendo-se atravessar mais de “300 anos” e tornar sintomas e corpo estranho em meio a uma cultura.
O movimento Coletivo a Deriva através da proposta Cuiabá 300 sombrinhas procura de alguma forma evocar tais críticas e reflexões, caminhando na contramão do espírito do modernismo e do colonialismo. Tal “caminhada à deriva” traz um senso libertador de não objetivista, mas, simplesmente seguir a deriva onde inusitadas experiências de um despertar crítico e de resistências surgem, em meio aos utensílios populares e os “inutensílios” poéticos Leminskianos. Tal movimento é puro ato micropolítico, em concretude e abstração, sugere um espírito crítico e empoderador, por onde é possível se implicar diante do socialmente cristalizado e desmistificá-lo; em um reposicionamento não mais como assujeitados, mas enquanto sujeitos de ressignificação, que caminhem e pensem na contramão.

Assim, sendo, não é possível pretender se opor a ele [ao  poder  capitalista] [...] Longe de buscar um consenso  cretinizante e infantilizante, a questão será, no futuro, a de cultivar o dissenso e a produção singular de existência. [...] Parece-me essencial que se organizem assim novas práticas micropolíticas e microssociais, novas solidariedades, uma nova suavidade juntamente com novas práticas estéticas [...] (GUATTARI, 1990, p. 33-5)

Diante de 300 anos, onde se fincaram estacas construindo estruturas sociais invertidas e perversas, subjugando o povo lindo e hospitaleiro dessa terra, e da tentativa da ofuscação da beleza e a liberdade dos ancestrais e filhos da Mãe África; do assassinato de nosso cerrado em nome do “progresso”; diante de tantos atos bárbaros os quais infelizmente se tornam socialmente e historicamente recalcados; caminhar a deriva e na contramão, dar abraços, entregar flores, plantar árvores, doar sementes e até viver alternativamente é um ato micropolítico e de resistência, pois: “a partir do momento em que há uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência. [...] podemos sempre modificar sua dominação em condições determinadas e segundo uma estratégia precisa” (FOUCAULT, 1979, p. 241).

Referências:

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

GUATTARI, Félix.  As três ecologias. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas: Papirus, 1990.

MIGNOLO, Walter D.. COLONIALIDADE: O LADO MAIS ESCURO DA MODERNIDADE.Rev. bras. Ci. Soc.,  São Paulo ,  v. 32, n. 94,  e329402,    2017 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092017000200507&lng=en&nrm=iso>. access on  01  June  2019.  Epub June 22, 2017.  http://dx.doi.org/10.17666/329402/2017.

ROSSI, Luiz Alexandre Solano. A máquina Helênica de fazer guerra. Antítese (UEL). 2011

SOUSA FILHO, Alípio. Por uma teoria construcionista crítica. Bagoas: estudos gays, gêneros e sexualidades, Natal, v. 1, n. 1, jul./dez. 2007. Disponível em: http://www.cchla.ufrn.br/bagoas/v01n01art02_sfilho.pdf . Acesso em: 01 maio. 2019


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