Ilha da Banana. População em situação de rua como habitantes do vazio.


Anyi Paola Muñoz Umaña[1]

A cenografia da sociedade contemporânea desenvolve em relações espaço temporais movíveis, onde as subjetividades interagem agitadas pelas forças do mercado que caracterizam o sistema capitalista, fazendo das cidades um espetáculo, e como espetadores assistimos a cidade à margem do palco. Assim, impõe-se nos ritmos de vida que nos consumem ao ponto de afastarmos do território no qual vivemos e convivemos, que no final implica tirar de nós a possibilidade de criar e recriar os lugares como espaços habitados pela cotidianidade.   
O percurso realizado no dia 13 de abril pela cidade de Cuiabá no aconchego de 300 sombrinhas, foi um ato que me permitiu um reconhecimento autentico de fragmentos da cidade já transitados, me colocando detidamente a caminhar por lugares que até então, depois de um pouco mais de um ano habitando a cidade como “estrangeira”, só tinha atravessado por acaso como partes aleatórias do trajeto.
            Entendendo que através desta elaboração estou reconstruindo a experiência de uma cidade escrita e que, como assinala Campos (2017), aqui o leitor vai encontrar só uma “possível representação geográfica literária”, o meu objetivo é refletir sobre as composições do percurso feito que me atraíram, e me permitem agora, a partir da palavra escrita, participar da construção do lugar sobre o espaço vivido com o olhar que eu produzo daquilo que me interessa; assim eu não estou só descrevendo um lugar que contemplei em quanto caminhava, eu estou exercendo minha subjetividade e construindo ele no relato escrito.
            O cenário privilegiado para observar a materialização das relações sociais de poder é a cidade, nela se cimentam os limites, as frações, os vazios e as descontinuidades construídas entre seus habitantes, à luz da constante desigualdade que caracteriza à sociedade capitalista. Neste contexto, apresenta-se durante o percurso feito um cenário específico: a Ilha da Banana, um lugar habitado por o fantasma das injustiças, deixando “espaços vazios que determinam a sua figura -como- os lugares que, mais do que qualquer outro, representam a nossa civilização no seu devir inconsciente e múltiplo” (p. 238).
            O meu interesse por analisar a realidade da população em situação de rua na cidade, faz com que meu olhar, e lugar habitado, esteja atravessado pelas discussões ali inseridas, é por isso que, dos fragmentos percorridos, o que me chamou foi a paisagem desse espaço vazio que escapa ao projeto moderno de cidade organizada e foi e ainda hoje é habitado por estes errantes nômadas[2].
            Uma vez começamos a caminhar pelo trajeto escolhido enxerguei que a Praça da Mandioca e seus arredores, geralmente lotados nas noites cuiabanas, estavam aparentemente vazios, eram espaços de transito onde se movimentavam carros e algumas pessoas com o propósito de chegar a um outro ponto de destino; notei que as ruas pareciam menores do que pensava, as casas pareciam mais velhas e tinham paredes coloridas que não tinha reparado, tudo parecia tão diferente, exceto uma coisa: a população em situação de rua ainda habitava estes lugares, dormindo ou deambulando pelas ruas.
            Assim, chegamos à Ilha da Banana, este lugar tinha uma composição visual que contrastava com a admirável Igreja Nossa Senhora do Rosário, já que são um significativo grupo de casas destruídas situadas no centro de duas estradas, ruinas do que antes foi um lugar de moradia de famílias inteiras de população em situação de rua e pessoas em profundas condições de vulnerabilidade, as quais foram desalojadas quase 2 anos atrás para dar continuidade ao Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), projeto que até o dia de hoje continua parado.
Neste ponto é importante assinalar que foi só na prática do caminhar, como um exercício de memória, reconhecimento e forma de habitar e construir os espaços, que consegui interromper meu ritmo de transito pela cidade e me questionar sobre o acontecido neste lugar já que, no meu habitar de mulher estrangeira estar na cidade de forma contemplativa produz temor, entendendo que ocupar a rua implica expor o corpo e que
“Caminhar significa enfrentar muitos medos: medo da cidade, medo do espaço público, medo de infringir as regras, medo de apropriar-se do espaço, medo de ultrapassar barreiras muitas vezes inexistentes e medo dos outros cidadãos, quase sempre percebidos como inimigos potenciais” (Careri, 2002, p. 241)


Contudo, até então, pelo medo e pela constante rotina do dia a dia, a minha vivencia nesta parte da cidade tinha sido a que Corrêa (2015) seguindo a Marc Augé define como não lugares, já que a sociedade contemporânea faz das ruas, especialmente aquelas próximas aos centros das cidades, de cenários de transito e comercio, virando “Um espaço de passagem atravessado com o objetivo final de chegar a um lugar. Um lugar é por sua vez um espaço onde são criadas relações, onde o permanecer é constante é intencional” (p. 44). No entanto, o que são não lugares para uns são lugares habitáveis para outros, como acontece no caso da Ilha da Banana.
            Mesmo na solidão, essas ruinas parecem uma parte caótica da cidade, que me deixou curiosa já que foi o lugar de moradia de pessoas que quebram os padrões de habitar o espaço, a população em situação de rua ocupa os vazios que compõe as cidades, confrontando os conceitos e as predisposições geograficamente colocadas sobre o urbano “são essas experiências do espaço pelos habitantes, passantes ou errantes que reinventam esses espaços no seu cotidiano” (Jacques, 2008, p. 4).
            A presença dos e das moradoras de rua nas cidades expressa corpografias[3] atravessadas esteticamente pela dinâmica velada da cidade, quer dizer, os corpos deteriorados e descuidados que ocupam espaços com as mesmas caraterísticas, denunciam uma existência dupla da cidade, que paradoxalmente é historicamente considerada o cenário da sociedade civilizada, mas que no cotidiano produz subjetividades que trata como descartáveis jogando-as a uma selva de asfalto.
Ilustração 1. Ilha da Banana.
Grupo Atrações temporárias.
            O devir das pessoas que fazem das ruas o lugar relacional onde desenvolvem as suas necessidades privadas, é também um agir de resistência ante os limites entre vazios e cheios que estruturam a cidade, onde algumas subjetividades se mantem à margem de ocupar lugares centrais, expondo-se a lógica desigual do capitalismo que nos absorve, isso explica por exemplo, o fato de que o uso da carteira de transporte subsidiada só seja permitido os dias úteis da semana, como se as pessoas “da periferia” só tivessem direito à cidade quando cumprem uma função produtiva. Isto para dizer que as pessoas em situação de rua ultrapassam essas divisões ao ocupar os espaços centrais das cidades que lhe são negadas, fato pelo qual enfrentam consequências de criminalização e violência como o foi o desalojo da Ilha da Banana, feito sem lhes oferecer algum tipo alternativo de moradia.
Segundo indaguei sobre o acontecido, as pessoas foram retiradas do espaço ocupado com o objetivo de continuar uma obra que ainda está parada, mas em resposta, como forma de sobrevivência e resistência, a população em situação de rua continua habitando arredor da Ilha Da Banana, no setor do morro da luz especialmente, numa insistência por dizer que estão ali e que a sua situação não pode seguir sendo velada; deixando estes vazios como mostra do esquecimento e do desinteresse político e econômico de diferentes setores da sociedade por transformar esta realidade, os quais ao invés de isso preferem manter os espaços abandonados do que ocupados por sujeitos que são soamente tratados como um problema de saúde pública ou de segurança, mas que como o que são: seres humanos.
          O percurso das 300 sombrinhas pela cidade me permitiu caminhar, transitar, contemplar, refletir e me deslocar para falar dos sujeitos que fazem dos deslocamentos a sua cotidianidade onde o andar se constitui “como prática estética e instrumento de crítica ao urbanismo” (Gomes, 2017, p. 145), critica a essa cidade que os situacionistas definem como cidade do espetáculo, na qual eu posso agir mais do que como observadora reconhecendo como os sujeitos, no caso a população em situação de rua, participam e recriam o espaço com a sua realidade à deriva. 

Bibliografia

AZEVEDO, Maria Thereza O. Sombras que passeiam: poéticas urbanas, subjetividades contemporâneas e modos de estar na cidade. Brasil. Revista Magistro 2013. (pp. 140 - 149)
    CAMPOS, Priscilla. Walkscapes em saturno: a geografia destroçada na escrita de W. G. Sebald. Recife. Revista Encontros de Vista No. 19.  2017. 
    CARERI, Francesco. Transurbância + Walkscapes ten years later. 2002. Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2013
    CORRÊA, Martha Cruz Abecasis. Caminhar como gerador de lugar. Estruturação de um espaço de contemplação. Lisboa, 2015.
    D´ANGELO, Ana Cristina. Com afeto, nas cidades. Nada de palcos. Artistas entregam-se ao cotidiano, ressencivilizam o espaço urbano e provocam a real convivência. FGV Brasil. 2011.
    JACQUES, Paola. Corpografias urbanas. Salvador – Bahia IV ENECULT, 2008.
    GOMES, Priscila. Por uma estética radicante: deslocamento, experiência e cidade. São Paulo, Brasil, 2017.
    MARIMON, Marianna. A história da invisibilidade dos moradores da Ilha da Banana. Cuiabá, 2017. Disponível em: https://www.cidadaocultura.com.br/a-historia-da-invisibilidade-dos-moradores-da-ilha-da-banana/ acesso: 27/abril/2019.
    
    REY, Sandra. Caminhar: experiência estética, desdobramento virtual. PORTO ALEGRE, Revista Porto Alegre V. 17, Nº 29, 2010.





[1] Asistente Social pela Universidad Nacional de Colombia. Mestranda no programa de Política Social da universidade Federal de Mato Grosso.
[2] O conceito de errâncias urbanas é definido pela arquiteta brasileira Paola Berenstein Jacques para se referir aos sujeitos que com as suas práticas quotidianas e ordinárias modificam, a través do percorrer pela cidade, o uso estabelecido para os espaços urbanos. No caso se usa o conceito de nômadas para aludir às experiências especificas da população em situação de rua, considerada uma incógnita para a sociedade já que a maioria deles e elas encontram-se excluídas dos sistemas de registro e identificação institucionalmente gerados para a cidadania.
[3] O conceito de corpografias é usado por Paola Berenstein Jacques e Fabiana Brito para aludir aos corpos em resistência que se vem modificados pela incorporação das múltiplas experiências possíveis dentro das logicas cartográficas e coreográficas das cidades contemporâneas.

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