Quem somos nós na cidade?



Danielle Ferraz Garcia ¹

O meio pode ser classificado como aquilo que fica entre dois opostos. Um caminho entre, algo que faz a ligação. É pelo meio que as ações são realizadas, e através dele que a concretude da vida se propaga. O homem se coloca em determinadas posições, mas também transita pelo meio, pela vida, pela cidade.
A cidade, palco livre, antagônica e efêmera cede seu tecido para que o meio nela se instale, verte em cada um suas consistentes ou inconsistentes verdades que ressoam particularmente com cada ocupante do seu solo. A cidade, local que pode ser facilmente conceituado como área urbanizada, uma urbe ou uma região administrativa se coloca muito além de qualquer conceito ou definição. Classificar, engendrar e definir faz parte do anseio humano de compreender algo que é maior que ele, a significação é um subterfúgio na busca de entendimento do que é de fato essa tal cidade.
A composição urbana perpassa por espaços cheios e vazios, ocupações numerosas e desocupações, natureza viva e morta. Dentro do recipiente chamado cidade há um sem fim de cenários, formas, cores, texturas, sons e cheiros que se misturam para formar o presente, partindo do pressuposto de que na cidade o que vale é o agora, pois o amanhã pode se colocar diferente desde uma chuva que cai a um prédio demolido ou uma árvore que floresce.
A cidade cosmopolita cada vez mais vivencia o seu auge enquanto organismo vivo, urge e ruge o tempo todo com a inerente pressa que é viver em um espaço condensado, similar a uma panela de pressão onde se fala muito sobre o que fazer e muito pouco sobre o que sentir.
E diante disto, fica a inquietação: quem somos nós na cidade?
Talvez não haja uma resposta. Ou talvez seja necessário subverter a ordem lógica das coisas para se aproximar de algo que possa responder um questionamento tão profundo.
Quem é a cidade, então?
Partindo da ótica fenomenológica, a cidade pode ser vista sob o conceito de lugar oriundo do conceito de genius loci, termo em latim que pode ser traduzido como “espírito de um determinado lugar” (NESBITT, 2006).
Tal espírito permeia o espaço e é através dele que se adquire a significância relativa à percepção. Para Schulz (1974, tradução nossa) "O conceito de ‘espaço’ certamente não é novo na teoria da arquitetura, mas pode ter muitos significados. A literatura corrente distingue dois usos: o espaço como geometria tridimensional, e espaço como campo perceptual".
Sendo assim, o olhar dado para a cidade deixa de ser puramente físico e adentra no campo das percepções sensoriais, onde a urbe adquire uma alma que a traduza de acordo com todo conjunto que é experenciado em seu interior. O conceito de experiência coloca em voga o protagonismo do sujeito, pois é através dele que a compreensão do espírito do lugar se desenvolve ou não. Sem sujeito não há cidade e não há motivos para se ter uma.
Embora nossas cidades estejam repletas de sujeitos isso não significa que automaticamente todos terão sensações e compreensões igualitárias no espaço urbano. Muito pelo contrário, em um cenário cada vez mais bombardeado por informações e tecnologias que nos sugam da vida cotidiana, a cidade perde seu protagonismo e está quase fadada a ser apenas um simples espaço onde circulam pessoas cada vez mais alienadas de si mesmo.
Fica então a inquietação de como experenciar a cidade através de seu genius loci e todos os conceitos em si arraigados quando cada vez mais estamos anestesiados dentro de nossas próprias bolhas?
O conceito de deriva vem de encontro com o espírito do lugar na busca de colocar o sujeito no tempo presente da cidade, vivenciando-a de maneira que experiências sejam geradas a partir de suas percepções. "Entre os diversos procedimentos situacionistas, a deriva se apresenta como uma técnica de passagem rápida por ambiências variadas. O conceito de deriva está indissoluvelmente ligado ao reconhecimento de efeitos de natureza psicogeográfica e à afirmação de um comportamento lúdico-construtivo, o que o torna absolutamente oposto às tradicionais noções de viagem e de passeio". (JACQUES, 2003).
A deriva tem o poder de retirar o ser humano de sua constante letargia urbana e colocá-lo frente a incerteza do presente que é estar na cidade, sem saber o que pode acontecer ao se dobrar uma esquina. Para vivenciar a deriva o sujeito deve se dispor a parar, a retirar todo e qualquer objetivo inerente à condição de partida ou chegada. Não há partidas ou chegadas, não há uma finalidade a não ser única e exclusivamente flanar e sentir. Se colocar a deriva nos aproxima com a vida, que é senão um punhado de acontecimentos que até tentamos prever, muitas vezes em vão. "O acaso ainda tem importante papel na deriva porque a observação psicogeográfica não está de todo consolidada. Mas a ação do acaso é naturalmente conservadora e tende, num novo contexto, a reduzir tudo à alternância de um número limitado de variantes e ao hábito". (JACQUES, 2003).
A condição de deriva impõe que o sujeito esteja em sua forma mais vulnerável: a de pedestre. É nesta escala, livre da armadura do automóvel, que conseguimos estar de maneira igualitária, desprendidos de tudo aquilo que nos retira do sentir. De certa forma volta-se às origens enquanto ser humano e espaço para que assim sejamos capturados por aquilo que nos toca. "Caminhar é uma abertura para o mundo. Restitui ao homem o sentimento feliz de sua existência. Ele mergulha você em uma forma ativa de meditação que requer plena percepção sensorial. Às vezes, retorna-se da caminhada transformado, mais inclinado a aproveitar o tempo para se submeter à urgência que prevalece em nossas existências contemporâneas".  (BRETON, 2000, tradução nossa).
Experenciar a deriva também envolve o campo pessoal do sujeito, suas apreensões, compreensões e inquietações acerca dos lugares serão originadas a partir de sua própria construção interna e a cidade ressoará para ele de uma maneira muito ímpar e particular. Ainda que tais experiências sejam dadas de forma pessoal, Jacques (2003) ressalta que "Pode-se derivar sozinho, mas tudo indica que a distribuição mais proveitosa será a que consiste em vários grupinhos de duas ou três pessoas com idêntico nível de consciência, cujas observações serão confrontadas e levarão a conclusões objetivas".
Deste modo, uma saída para nos conectarmos novamente com o espaço da cidade pode ser visto através do campo do situacionismo, onde são criadas situações que nos coloquem face a face com o experenciar pois é somente através dele que as nossas percepções acerca do espírito do lugar podem ser construídas, reconstruídas ou destruídas.
No que tange à deriva, no dia 13 de abril aconteceu o evento Cuiabá 300 sombrinhas. Esse encontro foi criado com o objetivo de aproveitar o aniversário de 300 anos da cidade de Cuiabá para chamar a atenção para o fato de Cuiabá não ser mais a dita cidade verde, título que foi lhe conferido durante várias décadas. O evento em si não tinha pré-estabelecido um roteiro, mas sim ações de diversas temáticas que visavam tanto quebrar a rotina dos transeuntes e participantes quanto criticar os rumos que a cidade tomou.
A concentração do evento foi na Praça da Mandioca e seguiu para a Rua Pedro Celestino, onde a cada trecho do passeio artistas faziam suas performances e atos. O passeio contou com vários destaques, dentre eles a narrativa no Beco do Candeeiro, violinistas tocando seus instrumentos em plena rua, performance sobre o lixo nas escadarias da Igreja do Rosário, dentre outros. 
O objetivo da deriva é justamente este, não há um engessamento do que será realizado e tampouco pode prever-se quais serão as reações das pessoas frente aos acontecimentos. A deriva proporciona um misto de situações que fogem do dito controle e traz frutos que surpreendem a cada trecho vencido.
“Quem somos nós na cidade” sempre será uma questão subjetiva e que dependerá invariavelmente de como nós nos colocamos diante disso. Enquanto sujeitos, podemos derivar sempre que quisermos acessar aquilo que é, mas que talvez não esteja sendo visto.
A deriva auxilia na resposta da pergunta que é título do texto, proporciona que nos questionemos sobre quem somos nós na cidade a partir das narrativas que vemos, e principalmente, quais narrativas contamos frente a esse território que é ao mesmo tempo conhecido, mas também inexplorado. Quem somos nós na cidade vai depender muito de qual olhar temos sobre ela, quais percepções, indagações e inquietações. A cidade nos reflete tal qual somos, é reflexo do nosso olhar e, porque não dizer, do nosso eu.




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1 - Arquiteta e Urbanista – Universidade Federal de Mato Grosso, Mestranda em Estudos de Cultura Contemporânea – PPG-ECCO, disciplina de Tópicos Especiais em Poéticas Contemporâneas I, ministrada pela Prof. Dr. Maria Thereza Azevedo. E-mail: danielleferrazg@hotmail.com


Referências Bibliográficas:

BRETON, David Le. Elogio de Caminar. Madrid: Siruela, 2017.

JACQUES, Paola Berestein (Org.). Apologia da Deriva. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

NESBITT, Kate. Uma Nova Agenda para Arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2008. Disponível em: https://www.academia.edu/36164658/_10_Kate_Nesbitt_-_Uma_nova_agenda_para_arquitetura_leitura_online_. Acesso em: 6 abr. 2019

NORBERG-SCHULZ, Christian. Existence, Space & Architecture. New York: Praeger, 1974.

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