Por novos caminhos e novas maneiras de caminhar.

Ana Vittori Frigeri


A cidade da comemoração

O espetáculo dos 300 anos de Cuiabá invadiu a capital de propagandas, anúncios, homenagens e intervenções. Sob as mesmas imagens e símbolos - a da arquitetura antiga, da viola de cocho, do siriri e cururu do peixe e do caju - o discurso dominante ainda insiste na busca pela representação de uma “verdadeira” Cuiabá e do cuiabano “de verdade”. Assistimos à constante representação de uma identidade cuiabana fabricada, numa reunião de imagens-produtos, distantes da experiência no espaço urbano e em que o consumo impera sobre as outras possibilidades de ação. Estamos diante de um evento que transformou a história da ocupação da cidade e a representação de sua arquitetura em lojas de shoppings - a cidade da comemoração transformou o espaço da memória em espaço de consumo. Assim, nessa insistente  representação de imagens fabricadas, em que cultura é transformada em mais um tipo de mercadoria e que as ações “oficiais” fortalecem em nós uma subjetividade capitalística, quais as nossas chances em reproduzir outros olhares e outras formas de agenciamento?
Tendo em vista essa transformação da cidade em palco para o espetáculo, em especial neste ano de comemoração do tricentenário da cidade, é preciso entender o processo de espetacularização da cidade contemporânea relacionado a uma “diminuição tanto da participação cidadã quanto da própria experiência das cidades enquanto prática cotidiana, estética ou artística” (JACQUES, 2008). Dessa forma, intervir com o caminhar de 300 sombrinhas por novas possibilidades de ocupação, é andar na contra-mão dessa cidade-mercadoria. E é essa relação entre o corpo que caminha e a cidade, no reconhecimento de espaços menos espetaculares, que pode apontar caminhos alternativos e micropolíticas, numa espécie de resistência social aos modos dominantes de espacialização (JACQUES, 2008; GUATTARI e ROLNIK, 1996).
Contrários aos discursos de reconhecimento de uma identidade cuiabana, ocupar e intervir na cidade apontam para tentativas de singularização que, segundo Guattari e Rolnik (1996), “desencadeiam processos de reapropriação dos territórios subjetivos”. Dessa forma, a ação Cuiabá: 300 sombrinhas foi uma experiência de reapropriação do centro de Cuiabá que, paralelamente às atividades cotidianas da cidade, promoveu o caminhar entre o território midiático e o território da memória, entre o espetacular e o “invisível”, possibilitando novos olhares e novas formas de ocupação do espaço urbano. A intervenção consistia no caminhar de 300 sombrinhas num percurso que se iniciava na praça da mandioca, partindo em direção à Igreja N. S. do Rosário, depois no Bairro Baú até que, percorrendo a Avenida do CPA e depois a Av. Mato Grosso, retornou à praça da Mandioca. Simultaneamente, intervenções foram se desdobrando - música, teatro, dança, entre outras, se materializaram no espaço cotidiano. O “cortejo” passou por espaços abandonados (a praça do baú) ou invisibilizados (o Beco do Candeeiro), espaços não ocupados (o canteiro central da avenida do cpa) e por espaços espetaculares reinventados - o MISC, com a música que se ouvia saindo dos balcões; a Igreja N. S. do Rosário e as performances que se desdobraram em seu entorno; o Morro da Luz, ocupado pelo som de violinos, etc.
Dessa forma, o caminhar das 300 sombrinhas nos permitiu reinventar nossas referências desse território espetacular. Ou seja, o caminhar coletivo como outra forma de intervenção urbana, somado à busca por novas ocupações, experimentações  e apreensões do espaço urbano nos dão chances para resistirmos ao processo de espetacularização das cidades contemporâneas e nos permite desenhar novas cartografias, a fim de “fazer brechas no sistema de subjetividade dominante” (GUATTARI e ROLNIK, 1996).
As experiências de investigação do espaço urbano pelos errantes, através das errâncias e de suas decorrentes corpografias urbanas, apontam para a possibilidade de um urbanismo menos desencarnado, mais incorporado, ou seja, um pensamento e uma prática do urbanismo que utilizaria as errâncias e corpografias enquanto formas possíveis de micro resistência ao pensamento urbano hoje hegemônico, espetacularizado e espetacularizante.” (JACQUES, 2008)
Ou seja, o caminhar é resistência à reprodução de uma prática do urbanismo hegemônico e questionar as imagens do espetáculo no território das subjetividades capitalísticas depende da investigação do espaço urbano para a construção de novas possibilidades e outras formas de existência.  

Do cotidiano ao desvio: por novas formas de caminhar

A cidade enquanto um sistema complexo regulado pela produção, pelas relações formalizadas de trabalho e de família, pelos valores de consumo impulsionados pelas mídias, pelas burocracias que às vezes impedem o fluxo das coisas, cria um universo de sociabilidades obrigatórias, cheia de funções, horários e distribuição de tarefas, de regras inventadas para controlar-nos uns aos outros. Isso fortalece em nós uma subjetividade capitalística. (AZEVEDO, 2013)
Assim, dentro desse sistema regulado, o caminhar está sujeito às dinâmicas cotidianas da cidade em seu universo de “sociabilidades obrigatórias” e, guiado pelo roteiro do trabalho e do itinerário do transporte público, pelo roteiro do consumo e do medo, aponta para uma prática automatizada, submetida à subjetividade capitalística, localizando onde se caminha e que lugares se evita. Dessa forma, como o caminhar cotidiano constrói a experiência individual e coletiva na cidade?
Os deslocamentos elegem e configuram o espaço urbano como meio, local onde se desenrolam as experiências mais diversas, das quais se captam fragmentos. Composta por multiplicidades, a cidade contemporânea é sinônimo de movimentação, mobilidade, como processo de criação artística. (GOMES, 2017)
O que diz o caminhar cotidiano senão que a cidade é espaço de circulação da força de trabalho, que ocupa e transita entre os assentos e pontos dos ônibus, entre as faixas de pedestres e praças? O que diz caminhar cotidiano senão uma prática do consumo, em que o caminho é traçado pelos calçadões e o território é delimitado pelos setores comerciais? O que diz o caminhar cotidiano senão uma prática delimitada pelo medo? Em que a insegurança constrói um universo limitado de possibilidades de ocupação e diminui as opções de trajeto pela cidade, além de invisibilizar outras práticas de caminhar. O que diz o caminhar como rotina cotidiana do trabalho, do consumo e do medo senão construções de uma subjetividade capitalística?  
Partindo da ideia da corpografia urbana como “um tipo de cartografia realizada pelo e no corpo” (JACQUES, 2008) e do caminhar cotidiano como elemento dessa subjetividade capitalística, como podemos registrar experiências da cidade para além do que é imposto? Como construir uma memória diferente do espaço urbano, a partir do caminhar e - partindo desse universo de “sociabilidades obrigatórias” - como podemos agenciar outras formas de caminhar? É o caminhar desviante uma forma de resistência aos percursos cotidianos? Como podemos realizar novas cartografias que não dos movimentos “naturais” da cidade? Como realizar novas formas de registro e novas experiências na cidade? E, sobretudo, como o caminhar reinventa formas de ocupar, produzir e problematizar?
Contra o cotidiano da rotina, o desvio - a rota desviante - revê os modos de estar na cidade, de singularização na relação com a cidade.
Desviar das rotas conhecidas e sedimentadas como mapas fixos da cidade pode subverter a geografia calculada e funcionar como um processo de desterritorialização, ou como linha de fuga, na tentativa de ensaiar devires e desabrochar potências criativas de singularização na relação com a cidade. Pode vir a ser, um exercício de reconfiguração dos modos de estar na cidade, na contramão desta subjetividade capitalística. (AZEVEDO, 2013)
Não só o caminhar desviante, mas também a prática de forma coletiva - o caminhar coletivamente - restaura novas possibilidades de resistência e reapropriação. Dessa forma, a ação Cuiabá: 300 sombrinhas, inserida dentro de um processo colaborativo/social - o de caminhar pela cidade juntos - permite explorar possibilidades de singularização em oposição ao cotidiano da individualização. Portanto, a ação se coloca a favor do caminhar desviante e coletivo na tentativa de criar outras possibilidades, outras experimentações e sensações, por novas formas de ocupar a cidade. Ela defende, também, esse caminhar (coletivo e desviante) como um exercício de resistência, pela exploração de um percurso que justapõe a rotina e o desvio,ilustrando novas formas de participar.
Na busca por novos caminhos
A ação das 300 sombrinhas e o debate acerca das formas de caminhar apontam algumas possibilidades para novas formas de se viver na cidade, problematiza os modos de existência submetidos à ordem do capital e pode produzir novas experiências estéticas. A intervenção, contrariando os percursos e ações cotidianas aponta para a reflexão sobre os nossos modos de caminhar pela cidade e, principalmente, sobre os outros modos de experimentá-la.
O esforço, portanto, da criação de outros modos de existência é a busca por novas cartografias na construção de singularidade. Singularização que remete aos processos de produção de uma subjetividade singular - que, recusando os modelos preestabelecidos, busca construir novos modos de produção, de criatividade (GUATTARI, ROLNIK, 1996). Dessa forma,
Como produzir novos  agenciamentos de singularização que trabalhem por uma sensibilidade estética, pela mudança da vida num plano mais cotidiano e, ao mesmo tempo, pelas transformações sociais a nível dos grandes conjuntos econômicos e sociais?”(GUATTARI e ROLNIK, 1996)
A ação, entendida aqui como processo de singularização cultural, como um movimento na contramão da subjetividade capitalística, “através da afirmação de outras maneiras de ser, outras sensibilidades, outra percepção” (GUATTARI e ROLNIK, 1982) nos incita a
(...) refletir sobre como as práticas do percurso e os deslocamentos sujeitos acabam por tornar-se um referencial determinante à própria concepção e problematização da cidade. Uma forma latente de experiência e registro em que cada uma das intervenções são fragmentos de uma história citadina que está em constante mapeamento e ordenação, assumindo, tal qual aos seus passantes, a condicionante do efêmero e do temporário. (GOMES, 2017)
Dessa forma, agir contra-corrente e a favor desses processos de singularização, em que nos tornamos praticantes voluntários de errâncias é, na realidade, uma ação a favor de uma experiência cartográfica singular que, para além da prática “ordinária” - de legitimar ou não os projetos urbanísticos através da vivência ou experiência dos espaços urbanos - nos permite problematizar e, consequentemente, reinventar essas vivências e construir novas experiências. Dessa forma são as ações que importam, para além da imagem ou cenário espetacular, através dos desvios e atalhos, experimentados com outros sentidos corporais (JACQUES, 2008). Desviamos assim do caminhar apenas cotidiano, para agirmos em coletivo e, enfim, produzir experiências singulares, construindo novos referenciais e apontando para outras formas de existir em Cuiabá.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AZEVEDO, Maria Thereza Oliveira. Sombras que passeiam: poéticas urbanas, subjetividades contemporâneas e modos de estar na cidade. Revista Magistro, Rio de Janeiro, v. 8, n. 2, p.140-149, 2013.
GOMES, Priscyla. Por uma estética radicante: deslocamento, experiência e cidade. Estudos Avançados, São Paulo, v. 31, n. 91, p.143-156, 2017.
GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Subjetividade e História. In: GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Micropolíticas: Cartografias do desejo. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1996. Cap. 2. p. 11-126.
JACQUES, Paola Berenstein. Corpografias Urbanas. In: Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 4. 2008. Salvador.
REY, Sandra. Caminhar: experiência estética, desdobramento virtual. Revista Porto Arte, Porto Alegre, v. 17, n. 29, p.107-121, nov. 2010.

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