O Caminhar de Sombrinhas na Cidade ao Sol: um ensaio sobre resistências poéticas cotidianas


Katiuska Azambuja


Resumo

Este ensaio retoma algumas noções da Internacional Situacionista, articuladas a criação da Caminhada Cuiabá 300 Sombrinhas, do Coletivo À Deriva, em 2019. Os conceitos de criação, do caminhar, e da falta de paixão, da vida moderna, são o cerne de uma reflexão que tensiona lógicas hegemônicas da cidade, como o isolamento, o sedentarismo, as inúmeras formas violentas de ser/estar no mundo, e escassez de diálogos, materializada em uma instalação poética, criada para a Caminhada.

Palavras-chave: Coletivo À Deriva. Instalação poética. Cuiabá. Cotidiano.

Introdução

Em comemoração aos 10 anos de Coletivo À Deriva e ao aniversário de 300 anos da cidade de Cuiabá, foi criada a caminhada Cuiabá 300 Sombrinhas. Esse caminhar plasma e revela múltiplas e efervescentes resistências. Durante a ação, houve entrega de 300 sementes do Xingu, jogos teatrais, instalação poética, lambe-lambe, dança afro, leitura de trecho de um livro sobre o crime no Beco do Candeeiro, performances, apresentações teatrais, apresentações musicais com canto, violinos e violão, ciranda, entrega de 300 mudas de árvores, encontros, diálogos e afetos.
A ação poética foi planejada durante as aulas da disciplina Poéticas Contemporâneas I, coordenada pela Profª Drª Marithê Azevedo, no dia 13 de abril de 2019. O percurso da caminhada buscou contemplar o centro histórico da cidade, e o início da avenida do CPA, representando a Cuiabá tradicional e a contemporânea.  
Esta reflexão parte da noção de criação como ato de resistência, de Deleuze (1988 - 1989); Das noções e vinculações entre o caminhar e a cidade, de Careri (2002); Do pensamento dos situacionistas retomado por Jacques (2003); E da emersão da fotografia interessada no cotidiano de Rouillé (2005). Devido ao tamanho deste trabalho, refletir-se-á mais detidamente sobre o ato de caminhar, e uma instalação poética proposta na Praça da Mandioca.

O Caminhar, as Imagens Cotidianas e a Paixão

Deleuze (1988 - 1989), diz “Criar é resistir” e que “artista é quem libera uma vida potente, uma vida mais do que pessoal”. Neste sentido, a criação da Caminhada Cuiabá 300 Sombrinhas, é um ato polivalente de resistência, em si, pelo próprio caminhar, e por todas as ações que englobou.
Referente ao caminhar, Careri (2002, p. 242) afirma que: “(...) é um instrumento insubstituível para formar não só alunos como também cidadãos (...) um projeto ‘cívico’ capaz de produzir espaço público e agir comum”. Neste sentido, o caminhar é colocar o próprio corpo em contato direto com lugares, pessoas e situações. É colocar-se mais vulnerável, provocando os sentidos, e deixando-se em condições de ativar a paixão pela vida. É possibilitar espaços para diálogos, afetos, empatia, e possibilidades do “agir comum”, seja para resoluções de problemas ou desafios cotidianos, seja para criação de espaços de convivência e lazer, de um bairro, de uma comunidade, de uma região, e de toda uma cidade. O caminhar faz resistência à lógica hegemônica do sedentarismo, ao ritmo cotidiano frenético, ao isolamento, à escassez da prática dialógica, sendo o diálogo tão precioso à vida nas cidades.
Jacques (2003, p. 13) retoma o pensamento dos situacionistas que abordam a “ausência de paixão, da vida cotidiana moderna”. Essa noção fez ebulir questões relacionadas às inúmeras violências existentes em Cuiabá, e em Mato Grosso, que engendrou a criação de uma instalação poética, descrita logo abaixo.
Um canto da Praça da Mandioca. Uma cama de pétalas vermelhas. Pétalas essas que evocam paixão, enquanto o que estava em cima, deitado, era um galho, velho, seco e embolorado, provocando um contraponto visual, e evocando a “ausência de paixão”. Ao redor da cama encontravam-se fotos e imagens de mulheres violentadas, crianças sendo agredidas, violência policial contra povos indígenas, animais sendo maltratados, plantações de soja, veneno sendo despejado em plantações, Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), e peixes mortos.
Referente à escolha de fotos e imagens, deu-se em conformidade ao pensamento de André Rouillé (2005 apud Rey 2003, p. 113) em que “observa a coincidência entre o interesse da arte contemporânea pela pequena narrativa, pelo cotidiano, pelo comum, e a ascensão da fotografia enquanto um dos principais materiais da arte. (...)”. As imagens escolhidas são fenômenos socioculturais recorrentes no cotidiano da cidade e do estado.
Aquele galho solitário representava outros tantos, das Copas das árvores que foram desmatadas, para receber a Copa do Mundo da Fifa, em 2014, relegando os habitantes da cidade, ao sol e calor escaldante; bem como fenômenos socioculturais violentos, doentios, injustos, que genocidam.
Será que esses fenômenos revelam paixão pelas violências? Ou a “ausência de paixão” pela vida que engendram violências? Quais as relações entre a cidade que se auto intitula capital do agronegócio, com o alto índice de violências contra as mulheres? Quais as conexões entre esses fenômenos? Assim, como provocação aos transeuntes e participantes da Caminhada, perguntou-se: O que você tem a dizer? Deixado a disposição giz de cera, tinta guache e folhas de papel. As frases escritas foram: “Vidas Negras Importam”, “O amor mora aqui”, “Lula Livre”, “Ditadura nunca mais”, “Fora Bozo”,  “Proibido tiros”, “Amor”, “As coisas estão cansadas de serem vistas por pessoas razoáveis”, de Manoel de Barros, “Nós resistimos”, “A Arte existe porque a vida não basta”, de Ferreira Gullar, “Atenção, atenção, mais informação, igual vida salva”, “Nós existimos, mais amor”, um desenho de um galho seco e um sol imenso, ocupando toda a folha de papel.

Algumas Considerações

O caminhar pode contribuir na formação cidadã, na medida em que germina espaços de conexão, entre experiências e histórias de vidas, entre problemas individuais e sociais, entre sonhos, entre pessoas. Enquanto conecta, o caminhar faz resistência às lógicas hegemônicas, de um projeto de sociedade segregacionista, consumidora irresponsável, frenética, sedentária, que se estrutura de forma hierárquica, violenta, doentia, que preconiza o status ao ser humano, ao bem-estar coletivo, à vida.
As frases-respostas às fotos e imagens da instalação, revelam anseios e pensamentos de um outro projeto de sociedade, mais justa, mais criativa, não racista, não-violenta, consciente do poder das resistências, e da paixão pela vida. Neste sentido, as sementes e mudas de árvores, entregues aos/as participantes da Caminhada, contrapunha-se ao galho seco, pois como diz a canção de Umbanda ao Senhor das Folhas, o Orixá Ossaim, “Sem folha não tem tempo, sem folha não tem vida, sem folha não tem nada não”. Na cidade ao sol também se saúda: Ewê ewê asá, Asá ô, Ewê ô, Eruejé.



Referências

CARERI, Francesco. Transurbância. Tradução Frederico Bonaldo. Debates, 2002. Disponível em: <http://www.redobra.ufba.br/>.

DELEUZE, G. O Abecedário de Gilles Deleuze: entrevista realizada por Claire Parnet entre os anos 1988-1989. Disponível em: <http://www.bibliotecanomade.com/2008/03/arquivo-para-download-o-abecedrio-de.html?m=1>.  Acesso em: 03 maio 2019.

JACQUES, Paola Berenstein (org.). Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Tradução Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

REY, Sandra. Caminhar: experiência estética, desdobramento virtual. Trad. Daniela Kern. Revista Porto Arte: Porto Alegre, V.17, Nº 29, Novembro, 2010. P. 107-121.


ROUILLÉ, A. La photographie. Paris: Gallimard, p. 478-483, 2005.


ANEXOS








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