Hospitalidade Transmasculina em Cuiabá: uma sombrinha em trezentas


Doutorando no ECCO :Benjamin de Almeida Neves (benjamimbraga1@gmail.com)


‘’Um ato de hospitalidade só pode ser poético’’
                                                          Derrida

Este trabalho discute alguns desafios que se colocam, nesse momento da história, aos processos de construção das epistemologias transmasculinas brasileiras. Não tenho a intenção de formular uma única e verdadeira versão transmasculina da história da experiência humana pois, de acordo com Sandra Harding (1986), algumas vertentes feministas, especialmente as do norte (CONNEL, 2016), arriscam-se a reproduzir na teoria e na prática política, a tendência das explicações patriarcais para policiar o pensamento, presumindo que somente os problemas de algumas mulheres são problemas humanos.
Quando se trata de problemas humanos e tendo como referência a pedagogia da hospitalidade (DERRIDA, 2003), com base na filosofia da alteridade em Levinas (1988), em que o Outro é tomado como base de uma relação ética na qual o Eu é convidado/convidada a participar do convívio do Outro, essa pedagogia se propõe a romper com as barreiras de uma educação centrada tão somente na capacidade do eu egoísta.
O que ela nos propõe é uma abertura ao infinito das possibilidades da relação onde o Outro se revela com sua história, sua cultura, sua etnia, sua raça, sua idade, sua região, sua (não) religiosidade, orientação sexual e outras interseccionalidades, e o Eu se adeéqua às necessidades daquilo que se apresenta como diferente.
Ainda que eu more em Cuiabá há apenas um ano, venho praticado errâncias urbanas (JACQUES, 2006) em diversas regiões da cidade e também em alguns municípios vizinhos da capital. Já faz algum tempo que inseri errâncias nas minhas práticas cotidianas, de hospitalidade e de cuidado em saúde.
Uma memória ou grafia urbana e rural tem sido inscrita em meu corpo, mas este mesmo corpo também tem deixado rastros (DERRIDA, 2014), pois, de acordo com Jacques, 2006:
Para os errantes- praticantes voluntários de errâncias - são sobretudo as vivências e ações que contam, as apropriações feitas a posteriori, com seus desvios e atalhos, e estas não precisam necessariamente ser vistas (como ocorre com a imagem ou cenário espetacular), mas sim experimentadas, com os outros sentidos corporais. Os praticantes da cidade, como os errantes, realmente experimentam os espaços quando os percorrem e, assim, lhe dão “corpo” pela simples ação de percorrê-los. (JACQUES, 2003 p.04)

A ocupação se dá desta maneira, quase sempre como uma tática de guerrilha: as operações por direitos humanos se desenvolvem em diversos planos e todos esses planos são territórios de disputas. As mais diversas táticas de guerrilhas trans buscam, assim como nas guerras de descolonização, travar uma transformação no tecido social. Segundo Kohan (2014), a cidadania apenas se cumpre globalmente quando é localmente exercida. Pessoas trans e travestis fazem de seus corpos uma ocupação. Tomam as rédeas de seus modos de vidas não cis hegemônicos e nos apoderamos desses corpos e também, das ruas e das redes mais diversas, para lutarmos por cidadania.
 Aqui se luta pelo direito à cidade (Lefrevre, 2008), no sentido de poder usufruí-la de dia, de poder circular só, de ir e vir. De entrar e sair dela, de des (loucar)- se, de ocupá-la. A cidade, assim como nossos corpos e direitos civis básicos, é negada a pessoas de classes sociais baixas, pessoas negras, com necessidades específicas, pessoas idosas, mas, principalmente, pessoas travestisgeneres (Siqueira, 2015), em períodos diurnos.
Minha tática guerrilheira ou prática pedagógica de autolibertação/decolonial é afetada e (trans) formada em Cuiabá e adjacências. Meu corpo transmasculino de meia idade é capaz de circular e ocupar todos os espaços por mim cartografados em duas rodas e ou inventados na cidade. Um privilégio que pude e posso gozar por ser trans e estar empregado, por ter uma bicicleta, panturrilhas fortes, que estão sendo cada vez mais torneadas, ter uma leitura social cisgênera (NEVES&PEÇANHA, 2017) e, por essa vontade, por esse (re) encontro com a estética do meu olhar, um olhar ou uma ética de vida muito próxima das dos/das Malucas de BR (LEITÃO, 2015).
Ocupando a cidade em duas rodas, faço um novo mapeamento de espaços LGBTIQ ou transmasculinos, simplesmente pelo fato de meu corpo, esse corpo peregrino, utilizá-los ou inventar/dar novas utilidades a eles. Diversos bairros entendidos socialmente como periféricos da capital foram por mim (re) visitados/ explorados algumas dezenas de vezes ao longo de um ano e agora quase quatro meses. Esses bairros foram por mim ocupados e cartografados em diversos momentos.
  Se para Derrida em sua obra intitulada Gramatologia (2014, p. 24) ‘’a escrita está a serviço da voz’’, se ela é ‘’vítima da usurpação da voz’’ do significado e não do significante, é testamentária, menor (Deleuze&Guattari,1970) e também cadáver,
Não é por acaso que o pensamento do ser, como pensamento deste significado transcendental, manifeste-se por excelência na voz: Isto é, numa língua de palavras. A voz ouve-se – isto é, sem dúvida, o que se denomina consciência – no mais próximo de si como o apagamento absoluto do significante. [...] É a experiência única do significado produzindo-se espontaneamente, do dentro de si, e contudo, enquanto conceito significado, no elemento da idealidade ou da universalidade. 
Todavia, quando se trata de vozes ou escrituras trans, talvez, neste espaço-tempo elas se aproximem, incidem. Talvez elas sejam necessárias, concomitantemente ou não, nos mais diversos espaços sociais, exatamente por sua especificidade de ausência de escutatória (Alves, 2003). Para a maior parte da população transbrasileira, vozes e escrituras são cadáveres; com alguma sorte, rastro (Derrida, 2014).  
Atento e aberto às serendipidades ou pequenos milagres cotidianos (Gonçalves, 2009), descobri preciosidades que não estava procurando, inclusive a/em mim mesmo. Este feliz momento quase que fica engavetado em meus arquivos pessoais. No entanto, notei que elas deveriam ser partilhadas por conta de seus potenciais e como uma maneira concreta de agradecimento pela hospitalidade que conheci e vivenciei.
 Na segunda metade desta obra, Derrida (2003) nos define o que é a hospitalidade e suas leis. No entanto, o que ele quer nos revelar é sobre a lei maior da hospitalidade, que é algo que não se demanda, como se comumente compreende o conceito de hospitalidade, mas se faz. De acordo com Daiana Davis (2011), um exemplo de aplicabilidade desta lei maior da hospitalidade pode ser encontrado em uma cena do filme A Lista de Schindler (1993).
O homem e personagem principal da obra, que resgata diversas pessoas da morte em campos de concentração nazistas, fá-lo sem nenhuma lei determinar que ele  tivesse que fazê-lo. Não há e não havia uma lei da hospitalidade civil que o obrigasse a fazê-lo. O que o fez agir daquela maneira? Se a lei da hospitalidade não tem lei, não há limites ou condições.
A pergunta que Derrida nos faz é: de onde ela vem? Toda vez que se escreve ou se fala sobre hospitalidade, ela é escrita ou ditada sob ou com condições, ainda que o impulso seja ilimitado. ’Você vivencia somente na tentativa de respondê-lo e a não ser capaz de fazê-lo’’ (Davis, 2001). Ou seja, o impulso da hospitalidade é ilimitado e incondicional. Em buscas de respostas para as suas próprias subjetividades, outras perguntas podem ser feitas, outros caminhos podem ser percorridos, desviando de objetivos iniciais e abrindo caminhos outros, de acordo com as corpografias (JACQUES, 2006).   
A lei da hospitalidade requer que se quebrem todas as leis. Ignorar condições físicas, lógicas, políticas e, principalmente, condições recíprocas que limitem a cena da hospitalidade. Embora a lei da hospitalidade, da qual Derrida nos conta, nos proponha que quebremos todas as outras leis, ela não pode ser categoricamente imperativa, universal.
Se tradicionalmente na história da filosofia o indivíduo é uma identidade, produto da metafísica e está sempre presente, para Derrida não há fully present presence, não há um indivíduo que não seja produto de uma relação diferencial. A relação viria primeiro. Davis (2011) nos sugere, como exemplo, para melhor compreendermos essa diferença entre singularidade e indivíduo, que nós podemos ser como radares. Podemos nos identificar, mas não somos fechados, não somos suficientes. Somos produtos de forças inter-relacionais. Se as forças mudam, você muda. Se as relações mudam, você também muda.
Ainda de acordo com Derrida (2003), se você é singularidade você já está por definição respondendo boas vindas antes mesmo que você possa ter uma chance de escolher. Ou seja, o indivíduo quando ‘’entra porta adentro’’, a iminência deste instante é considerada ‘’boas vindas’’. É somente quando um indivíduo ocupa, depois que entra em um recinto, que existe e, por conseguinte, você pode ou não expulsá-lx.
Para melhor exemplificar o que Derrida nos aponta, Davis (2011, s/p) nos traz como exemplo diálogos telefônicos trocados em The Telephone Book (1989), onde a autora identifica que:
Quando se atende um telefonema, já é welcoming. Seja você dizendo sim, alô ou não, não quero atender a sua ligação, você já a atendeu/recebeu. Mesmo que você não pegue o telefone, o toque já anuncia que o outro já está dentro. (Tradução minha, s/p.2011)
 Até a intervenção política e estética proposta e construída pela professora Marithê e o restante da turma, da qual também faço parte, na disciplina por ela ofertada em 2019 -  intitulada Cuiabá, 300 sombrinhas - no centro histórico de Cuiabá, minhas corpografias até então, só haviam se dado, exclusivamente, em bairros entendidos como periféricos, e em errâncias que Milton Santos confirmaria como sendo características de um homem lento.
Os mapeamentos afetivos por mim feitos da capital até então, não incluíam o centro da cidade. Tendo isto em vista e a longa distância de minha residência e o centro, dirigi minha motocicleta naquela manhã de sábado. Não contando com minha cartografia do afeto, fui obrigado a utilizar de recursos tecnológicos para conseguir chegar ao local primeiro da intervenção: a Praça da Mandioca.
Reduto boêmico e artístico da capital, esta praça foi por mim visitada na primeira vez que estive na cidade, no ano de 2017, para prestar o processo de seleção para o curso de doutorado. Na ocasião, uma segunda-feira a noite, a praça estava vazia e passei boa parte da minha noite, conversando com R., um maluco de estrada (LEITÃO,2015) que se sentou no chão, ao lado da mesa onde eu estava sentado e estendeu seu trabalho na pedra (LEITÃO,2015).
Conversamos por muitas horas, e R. me contou sobre suas experiências de vida, o motivo de escolher Cuiabá como local para ele viver hoje como pardal (LEITÃO,2015) e não mais com um maluco de BR. Compartilhei com ele meu trabalho de fotografias e poesias realizadas com estudantes na cidade de Saquarema, onde residia na ocasição, e nos despedimos: ele com uma fotografia minha e uma poesia e eu com um de seus trabalhos artesanais.
Retornando à Praça da Mandioca, agora já no ano de 2019 e me utilizando de tecnologias frias e não afetuosas, me perdi. Acabei vagando por algumas ruas, próximas à Mandioca, mas não encontrei a professora, nem outros/outras estudantes ou outras sombrinhas. Após alguns minutos de frustração e ansiedade por não encontrá-los, resolvi parar em um local e pedir informações sobre como chegar à praça, uma vez que lá também seria nosso local de encontro para concluirmos a intervenção.
Ainda que eu tenha perdido quase todo o processo do percurso pré estabelecido por nós e demais intervenções artítiscas e culturais, ganhei minha ida de diversas maneiras, mas uma delas havia sido realmente tocante: pude reencontrar R.! A vida da malucada, segundo Leitão (2015), pode se aproximar muito daquelas encontradas pela população em situação de rua, e o recurso a restaurantes populares, refeições oferecidas em igrejas e instituições de caridade, bem como distribuições de sopa ou mangueio de comida em casas e restaurantes - ação tipica de acontecer com frequência na Mandioca, pós madrugadas de sextas-feiras, são também formas comuns de se suprir as necessidades diárias.
A praça estava vazia e podia-se notar que a maior parte das pessoas presentes eram malucos de BR e pessoas em situação de rua. Ainda que eu nunca tenha exatamente vivenciado esses modos de vida, algo em comum me liga (va) aquelas pessoas presentes : a abjeção social e a ética da liberdade ou a ética de si.
Geralmente, somos educados/educadas socialmente a temermos o que é abjeto, mas naquela manhã, posso afirmar que me senti em casa, naquela praça que havia estado cheia de pessoas visíveis apenas algumas horas antes. Reparei que R. estava próximo de um senhor negro, que aparentava ter mais que os nossos quarenta e poucos anos, encostado na mureta da pracinha.
Me aproximei deles, dando bom dia e pedindo licença - o senhor, inicialmente, desconfiado - e cumprimentei R. e o senhor. Perguntei se R. lembrava de mim e, antes mesmo que ele pudesse dizer sim ou não, - eu achava que ele não seria capaz de lembrar do meu semblante- tinha quase certeza que ele lembraria da minha história de BR e de meu trabalho.
Parecia mesmo que eu estava certo. Ele não se lembrava de meu nome e nem dos meus traços físicos, mas lembrava, com alguns detalhes, da conversa que havíamos tido quase há dois anos atrás. A pedagogia da hospitalidade parecia ter funcionado mais uma vez. Após alguns minutos de conversa, R. se despediu e o senhor ficou, queria ver comigo a chegada do grupo na praça e ver se conseguia mais alguma coisa com o mangueio. Dei a ele um biscoito que tinha e coloquei minha instalação - um saco de cimento com mudas de plantas dentro dele- , no meio da praça. Juntos, avistamos o grupo e a professora retornando. Ele terminou o biscoito, se despediu de mim e como mais uma sombrinha, eu agradeci o momento vivido.   

 Referências:

ALVES, R. O amor que acende a lua. Campinas: Papirus,2003.
CONNEL, R. Gênero em termos reais. Tradução Marília Moschkovich. São Paulo : Inversos, 2016.
DAVIS, D. Hospitality, home and self. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=T3Xhpzanq-U>. Acesso em: 20 abr 2019
DERRIDA, J. Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar Da Hospitalidade/Jacques Derrida [Entrevistado]; Anne Dufourmantelle; tradução de Antônio Romane; revisão técnica de Paulo Ottoni. – São Paulo: Escuta, 2003
____________. Essa estranha instituição chamada literatura: uma entrevista com Jacques Derrida. Trad. Marileide Dias Esqueda. Belo Horizonte: UFMG, 2014.
GONÇALVES, A. Um defeito de cor. Rio de Janeiro. São Paulo: Record, 2009.
HARDING, S. A Instabilidade das Categorias Analíticas na Teoria Feminista. Estudos Feministas 7: N.1, 1993. Disponível em:   <http://www.legh.cfh.ufsc.br/files/2015/08/sandra-harding.pdf>. Acesso em: 07 abr. 2019
JACQUES, P. Corpografias urbanas. IV ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura 28 a 30 de maio de 2008 Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil. Disponível em: <http://www.cult.ufba.br/enecult2008/14401-03.pdf> . Acesso em: 06 mai.2019
KOHAN, O.; MARTINS, F.; NETTO, M. Encontrar escola: o ato educativo e a experiência da pesquisa em educação. Rio de Janeiro: Lamparina, FAPERJ, 2014.
LEFEBVRE, H. A revolução urbana. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.
LEITÃO, L. Malucos de Estrada. Uma etnografia de artistas nômades. Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2015.
LEVINAS, E. Totalidade e Infinito. (TI). (1961). Tradução José Pinto Ribeiro, Lisboa- Portugal, Edições 70, 1988.
RONEL, A. The Telephone Book. Nebraska: University of Nebraska Press, 1989.
  

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