Cuiabá 300 sombrinhas: o caminhar como processo de aprendizagem peripatético





Leandro Faustino Polastrini[1]

Introdução

A proposta de escrita deste texto nasceu a partir da intervenção denominada Cuiabá 300 Sobrinhas, atividade realizada em alusão aos 300 anos da cidade de Cuiabá em abril de 2019. Ação promovida e realizada pelo Coletivo à deriva que está ligado ao Grupo de Pesquisa Artes Híbridas Intersecções, Contaminações e Transversalidades do Programa de Pós-graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
  Essa intervenção teve sua inspiração no flânerie, aquela pessoa que caminha pelas ruas sem rumo, sem objetivo, aberto ao por vir, na busca de inspirações, muito frequente no movimento dos impressionistas em Paris no séc. XIX. Outros movimentos/conceitos artísticos que também inspiraram essa intervenção foram: a Deriva conceito cunhado pela Internacional Situacionista (IS) nos anos 60, que consistia em deambular, experienciar a cidade de novas maneiras, olhares diferentes através de coletivos ou de maneira individual, pensando nas relações psicossociais ou psicogeográficas destas experiências com a cidade e seus espaços, o outro é o Land Art da década de 70 ao envolver os espaços urbanos, natureza e o homem.
A partir deste contexto para realização da intervenção citada acima, propus como objetivo para o presente texto uma reflexão sobre como o caminhar pode ser entendido como processo peripatético de aprendizagem e de vivência histórico-cultural. Segundo o Dicionário Online Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis o termo peripatético significa: “1 Que diz respeito à filosofia aristotélica; 2 Que ensina passeando, como fazia Aristóteles (384-322 a.C.) ”.

A intervenção e o caminhar como processo de aprendizagem peripatético 

De acordo com Santos (2016) o termo peripatético tem sua origem etimológica na palavra grega peripatetikós que significa “ambulante” ou “itinerante” e ganhou destaque com Aristóteles ao fundar em Atenas no século IV a.C., a então “Escola Peripatética”, na qual o método de aprendizagem adotado pelo filósofo grego consistia em ensinar ao ar livre seus pupilos, ou seja, ao caminhar pelas ruas, jardins, etc., enquanto transmitia os ensinamentos e lições.
A partir deste lugar busco aproximar a atividade de intervenção, Cuiabá 300 Sobrinhas, como também sendo uma atividade com princípio peripatético, ou seja, pelo caminhar ou pelas intenções surgidas ou advindas do ato de perambular pelas ruas do centro histórico de Cuiabá. Sendo assim, o que se vivenciava enquanto experiência do caminhar coletivo e no processo de deriva se constituía como (re)conhecimentos, como aprendizagens da vida histórico-cultural desses espaços, das personalidades do passado que deles emanam, deste modo, os caminhantes seja de forma coletiva ou individual, cada um com seus passos e olhares estavam a experienciar, a vivenciar aquele trajeto, as ruas, as fachadas das casas históricas e das praças no momento do presente, ademais de compartilhar as memórias e histórias desses lugares e de seus personagens  do passado durante o cortejo.
Portanto, o caminhar nesse caso deixa de ser despretensioso, e começa a ser lido como ato de transitoriedade pretenciosa, ainda mais em tempos atuais em que as banalidades do cotidiano contemporâneo fazem com que não olhemos ao redor para vermos as transformações histórico-sociais que as cidades têm passado. Os espaços urbanos, principalmente, os públicos têm se tornado cada vez menos coletivo, menos humanizado, menos afetivo, menos natural.  A vida cotidiana, os afazeres, os caminhos que percorremos às vezes utilizando-se dos mais variados tipos de veículos como meios de transportes que, algumas vezes, invisibilizam as histórias, as diversidades de vidas que nos cercam pelas ruas e espaços pelos quais transitamos, tornando-os apenas como vias para locomoção e não como lugares possíveis de se vivenciar e experienciar enquanto parte constituinte de nossa vida, do corpo social que nos compõe.
Trago para ilustrar o que disse acima os conceitos de Paola Berenstein Jacques (2008) sobre corpografias urbanas, “a memória urbana inscrita no corpo, o registro de sua experiência da cidade, uma espécie de grafia urbana, da própria cidade vivida, que fica inscrita mas também configura o corpo de quem a experimenta”.  Segundo a autora para os errantes aquilo que conta são as vivências e as ações, as apropriações feitas dos espaços, os desvios. Em síntese para Jacques os “praticantes da cidade, como os errantes, realmente experimentam os espaços quando os percorrem e, assim, lhe dão “corpo” pela simples ação de percorrê-los”.
Por esses motivos entendo o caminhar na proposição da intervenção como também um ato do contracotidiano ou contranormalidade, de aprendizagem histórico-cultural e das vivências, além de uma prática psicogeográfica do caminhar junto, lado a lado, das trocas afetivas, vivenciando as ruas com olhares diferentes, atraindo olhares diferentes, vivenciando as manifestações artísticas espalhas durante o percurso da caminhada. As performances através do teatro, da contação das histórias, das garrafas long necks embaladas por jornais e com poemas colados espalhas pelo caminho, das musicistas tocando músicas populares da região ao violino num espaço minúsculo em meio ao trânsito.
As ruas no cotidiano já são cenários de múltiplas atividades, cenas, personas, cores e estéticas, porém pude observá-las no meu trajeto sendo transformadas em espaços com funções além do de se transitar, elas se tornaram espaços de evidenciar, de denunciar, de (re)existir e resistir, mediado pelas artes, pelas presenças humanas, dos afetos e olhares diferentes. (Re)ocupar as ruas, onde normalmente os pedestres ou transeuntes não podem mais ocupar, parar o fluxo do tráfego de carros, de motoristas apressados, nos colocava no movimento de “contranormalidade”, de resistência ao fluxo da vida cotidiana considerada normal. (Re)ocupar espaços que muitas vezes esquecidos ou vistos como marginalizados com apresentações artísticas ou simplesmente pelo ato de caminhar por eles registra na memória e corporalidade dos caminhantes ou dos “errantes” novos ou diferentes (re)significados para estes espaços, ou seja, não será apenas uma rua ou uma praça qualquer, passará a ser a rua pela qual caminhamos num sábado de manhã, do mês de abril, do ano de 2019, com sombrinhas coloridas e decoradas, será a praça em que estivemos na qual aconteceu tal performance.

As relações perceptivas com a cidade, que derivam das experiências sensório-motoras dos espaços não espetaculares, em suas diferentes temporalidades, formariam então um contraponto à visualidade rasa da imagem da cidade-logotipo, da cidade-outdoor de cenários espetacularizados, desencarnados. (JACQUES, 2008, p. 4).

Como a intervenção foi uma caminhada coletiva, as possiblidades de trocas simbólicas e afetivas foram múltiplas, os abraços, os sorrisos, o colorido das sombrinhas ou dos guarda-chuvas atraíram olhares, a atenção dos que apenas caminhavam pelas ruas em suas práticas corriqueiras do dia a dia. O colorido das diversidades de pessoas também foi um atrativo para os olhares e trocas. A nossa perambulação também marcou as memórias daqueles que olhavam de longe ou até mesmo de perto, os curiosos, pois para eles o inesperado, o diferente estava acontecendo quando não se esperava que acontecesse.
A caminhada com suas atrações pelo caminho e pelo por vir mantinha o interesse e também as expectativas dos que caminhavam junto ao cortejo, quem se somava a ele trazia consigo suas expectativas, suas experiências individuais, subjetividades que foram se somando as dos outros, promovendo uma atmosfera de um corpo coletivo e múltiplo a caminhar pela cidade. Logo não era apenas um único corpo ou um indivíduo caminhando só pelas ruas, (re)ocupando os lugares banais e/ou marginalizados,  mas sim esse corpo coletivo, composto por corpos que se ajuntavam ao caminhar, por pluralidades que promoviam o sentido de unidade por apenas caminharem juntas.
De acordo com Maria Thereza Oliveira Azevedo (2013, p, 143) a cidade é vista como um espaço de multiplicidades e é também “lugar dos encontros e desencontros, constroem-se histórias, numa rede de memórias e significações e lugar de experimentação da alteridade no interior do qual novas subjetividades podem ser geradas”.
(Re)ocupar o largo a mandioca, ou popularmente conhecido como “praça da mandioca”, as ruas, praças e fachadas dos prédios de um parte do centro histórico de Cuiabá durante o dia, baixo um sol a pino e um calor escaldante de Cuiabá nos evidencializava, nos tornava visíveis em meio ao cotidiano de uma manhã de sábado, ora sendo vistos como estranhos, como os diferentes, ora como estorvo ao interferir no ritmo do tráfego dos automóveis, no ritmo do cotidiano dos motoristas e moradores da região, porém também pude observar que para muitos motoristas e transeuntes nossa presença mesmo que coletiva e chamativa, pelas sobrinhas e pelas ações artísticas continuava na invisilidade, na não percepção dos eventos do contracodiano.
Cito como exemplo dessa invisilidade a intervenção dos dois atores vestidos com figurinos confeccionados por sacolas plásticas e com máscaras burlescas, eles estavam no canteiro estreito entre as pistas da avenida da prainha, muitos motoristas sequer percebiam o que estava acontecendo ao seu lado, que haviam dois "corpos estranhos" perambulando entre eles, os vidros permaneciam fechados e quando abertos se podia ver que muitos nem dirigiam o olhar para a cena.
Por fim, para alguns a intervenção como uma ação peripatética não modificou apenas os corpos e memórias dos que deambulavam com ela, mas também os corpos e memórias daqueles que presenciavam o seu acontecimento à distância ou que por curiosidades se acercavam para perguntar o que estava acontecendo, questionando se haveria um café ou o famoso chá com bolo, como é costume na cultura cuiabana. Já para outros, alheios ou insensíveis ao seu acontecimento, pude observar que ela pareceu não significar nada, mesmo coexistindo como ação do contracotidiano.

Referências

AZEVEDO, Maria Thereza Oliveira. Passeio de sombrinhas: poéticas urbanas, subjetividades contemporâneas e modos de estar na cidade. Revista Magistro V. 8 n. 2. UNIGRANRIO, 2013.  Disponível em: <http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/magistro/issue/view/119>. Acesso: 05/05/2019.

CAMPOS, Martha Machado. Arte na cidade: da paisagem as dinâmicas urbanas. Revista Farol n. 7. UFES, 2006. Disponível em: <http://periodicos.ufes.br/farol/issue/view/N.%207%20%282006%29/showToc>.

Dicionário online de Língua Portuguesa Michaelis. Disponível em: < https://michaelis.uol.com.br/>

GONÇALVES, Mônica Hoff. Por uma pedagogia a pé: a caminhada como construção poética. Porto Alegre, 2008. Monografia Especialização em Pedagogia da Arte. Programa Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Disponível em:< https://lume.ufrgs.br/handle/10183/15683> Acesso em: 25/04/2019.

JACQUES, Paola Berenstein. Corpografias urbanas. IV ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador, 2008. Disponível em: < http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.093/165>.

SANTOS, Marcos Dornelles dos. Bernard Rudofsky: um olhar peripatético sobre a qualidade das ruas. IV ENANPARQ.  Porto Alegre, 2016. Disponível em: <https://www.anparq.org.br/dvd-enanparq-4/SESSAO%2041/S41-02-DORNELLES%20DOS%20SANTOS,%20M.pdf> Acesso: 25/04/2019.



[1] Doutorando do Programa de Pós-graduação em Estudos de Cultura Contemporânea.(leandropolastrini@gmail.com)




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