Cuiabá 300 anos de desmatamento: um “andante” e “aparecido” manifesto político de sombrinhas no espaço público

Lucas Guerra da Silva
Doutorando no ECCO (lucasguerra.psicologo@gmail.com)


1. Introdução

O espaço público é espaço de congregação e manifesto, mas não é algo “dado”, de modo que não pode ser definido a não ser por meio de políticas de aparecimento que disputem a reivindicação daquele espaço como público e passível de utilização para a manifestação de corpos em aliançamento – essa é a ideia da filósofa norte-americana Judith Butler (2018), com a qual concordo, e que embasará estruturalmente e a princípio o entendimento desta reflexão. Para ela, “Deixamos de lado parte do objetivo dessas manifestações públicas se deixamos de ver que o próprio caráter público do espaço está sendo questionado, ou até mesmo disputado, quando essas multidões se reúnem” (Butler, 2018, p. 80).
As multidões, ou as alianças entre corpos assim teorizadas por Butler são aquelas compostas por pessoas em reivindicações por direitos em função de pertencerem a uma condição precária – seja a condição gerenciada por políticas de Estado, seja pela negligência de gerenciamento do Estado –, ainda que as manifestações e reivindicações sejam por si só importantes políticas de aparecimento, e da revelação da condição precária. E produz rupturas na ordem do cotidiano, tensionando narrativas hegemônicas e de poder. O manifesto andante artístico, a meu ver, é revelador de uma estética política, ao produzir a crítica e a contradição do precário no espaço público.
Para Martha Machado Campos (2006), o andar também tem caráter interventivo quando visualizado de forma multi e transdisciplinar, porque ele preenche o que ela chama de vocabulário paisagístico híbrido: o diluído arquitetura-arte presente no contexto urbano. Ora, se andar no espaço público produz uma intervenção no contexto urbano, a ocupação andante de corpos no espaço público produz uma nova interpretação de preenchimento e uma nova garantia da função do espaço público. Ser visível, e ter um percurso que ocupe o espaço vazio constrói outra potência pública, e manifesta esteticamente algo. Ainda, penso que sob o entendimento de que qualquer estética é também política, porque produz afetação, mobiliza, envolve, constrói alianças entre corpos, e entre corpos e o paisagístico.
Deslocar-se artisticamente pelo espaço urbano público em um percurso não é gesto neutro, e os corpos caminhantes são a centralidade e material que redefinem o tempo todo aquele espaço, é o que pensa Priscyla Gomes (2017). Porque caminhar no espaço urbano público é também estar sujeito às afetações daquele espaço, ao surpreendente, ao que escapa de uma rota original. Não só a manifestação no público redefine o público, como também o que surpreende a manifestação no espaço público modifica a manifestação, e lhe dá novas potenciais interpretações e configurações, penso.
A questão da disputa do espaço público como público, por onde poderão transitar manifestações, vigílias, assembleias, e outros tipos de mobilização é fundamental para compreender o objetivo desta reflexão, (1) porque permite o tempo todo ressignificar os espaços públicos como públicos: públicos para quem, e de que forma se poderá transitar nele; (2) e, finalmente, porque a narrativa que apresenta esse estudo trata desta disputa pelo espaço público na cidade de Cuiabá, Mato Grosso, enquanto representante de narrativa de construção coletiva de corpos em aliança para um momento de mobilização, que ao produzir seus acontecimentos, afetou.
O primeiro ponto destacado aqui se refere a revelar que corpos são esses em aliançamento: artistas, acadêmicos e acadêmicas, homens e mulheres cisgêneros e transgêneros, plurais corpos. O segundo foi seu objetivo: construir um espaço de manifestação que já é histórico, produzido pelo coletivo “À deriva” que andando, e, portanto, aparecendo com sombrinhas há dez anos relembra ao espaço público neste ano de 2019 os 300 anos de urbanização de Cuiabá; que são também seus 300 anos de desmatamento que retiraram do espaço público a sombra para garantir a qualidade da própria possibilidade de caminhada as pessoas para suas intervenções no urbano. Tudo isso, evidentemente a partir daquilo que apareceu a mim ao longo da caminhada no trajeto.

2. O manifesto andante das sombrinhas: política de aparecimento nos 300 anos de Cuiabá

Ao entrarmos na narrativa do novo milênio precisamos evidenciar modos de instrumentação comunicacional que mudaram as dinâmicas culturais do ocidente e do oriente, reescreveram os paradoxos da Globalização, tanto na materialidade ao seu acesso quanto no limiar da fragilidade de público e privado. A emergência de uma política ciborgue, de íntima hibridação humano-máquina (Haraway, 2009) foi crucial para a organização da atração temporária que configurou o aparecimento do manifesto das sombrinhas em 2019 em Cuiabá. As redes sociais foram usadas para mobilizar, para divulgar, para construir a intervenção urbano-artística-política. Eram corpos em aliança na proposta de ir ao encontro da rua, e se postar na condição de aparecimento e de disputa do espaço público.
Estudantes do Programa de Pós-graduação em Estudos de Cultura Contemporânea junto da professora Maria Thereza Azevedo foram os disparadores das propostas de tema e trajetos, em negociação com seus conhecimentos sobre lugares históricos, sobre argumentos para carregar sentidos aos lugares, sobre suas memórias, seus afetos, sobre o recrutamento pelas redes mas também corpo-a-corpo de atores e atrizes que comporiam o fenômeno de aparecimento do que a mobilização pudesse dizer na efemeridade do temporário.

Não ser de Cuiabá não me fazia ao longo do trajeto pensar ou refletir os nomes das ruas pelas quais estava o meu corpo e o de outra multidão a caminhar com nossas sombrinhas, nem mesmo as praças, ou os outros pontos em que atrações aconteciam simultaneamente aos nossos encontros, e a quem decidisse apenas, na negociação consigo próprio e seu trajeto experienciar. Eu estive em absoluto focado a refletir o que aquela parte dessa cidade quente e desarborizada se tornando uma obra de arte móvel e gigante impactava em mim. Com uma caixa de poesias em garrafas, com meus colegas, eu me permiti escolher lugares urbanos públicos a depositar intervenções, produzindo ali pequenos novos acontecimentos; bem como presenteando as pessoas que cruzavam conosco, e que a partir daquele momento naquele encontro foram afetadas pelo espaço ocupado pelo caminhar das sombrinhas, e por um gesto meu de afeto literalmente poético. Meu encontro com pessoas e com lugares públicos praticamente desconhecidos a mim, foram parte de uma experiência que os transformou, mas que também me transformou.

A questão ambiental também era motivadora para minha compreensão sobre a importância deste específico modo de ocupação de um espaço urbano público: uma caminhada com sombrinhas. Pelo emblema linguístico que é a falta de sombras produzidas por árvores em processos seculares de desmatamento, com seu diminutivo, “sombrinha” como uma estratégia de negociação com nosso sol e calor cotidianos. Nesse ponto de reflexão é que eu percebo a questão da precariedade, da natureza em colapso, das escolhas humanas sobre os ecossistemas, e do que tudo que caminhar com sombrinhas, em uma engenharia artística inexata, significava enquanto manifestação política.
O apontamento à urbanização, comemoração de uma cidade, é também falar de transformações geográficas, espaciais, e para sempre o modo com que quem transitar ali poderá acontecer. A invasão do espaço público pelo privado: o público preservado se tornando um público limitado a ruas, praças, e alguns outros espaços não preservados. O público, pequenos riscos em meio a ilhas de espaços privados – na horizontal e também na vertical, na subida em direção ao céu, e mesmo em porões, subsolos. Concreto, asfalto, lixo para fora do privado ainda que não exista “fora” da perspectiva do espaço público aberto, ou “fora” da perspectiva do planeta; dá o tom do público disponível, e para a qual construímos uma política de ir e vir, de mobilidade, de trânsito, de produção de lei de multas, de faixas pintadas, de semáforos, de tecnologias de vigilância. E a qual temos que disputar como público.
Andar com a sombrinha naquele dia entre corpos em aliança não foi um movimento neutro, e o grupo que organiza essa atração temporária tê-la feito há dez anos, tampouco. O que significa que os afetos a serem produzidos por esta ação intencional é produzir a estética que garante o alcance de um status político de protesto. Ocupar e aparecer no espaço público, vale lembrar, já é por si um ato político porque disputa o significado do que é público. Fazê-lo armados de sombrinhas como substitutivos de árvores de uma natureza que não foi preservada ao longo dos 300 anos de urbanização de Cuiabá, numa manhã de calor, com a intenção de transformar parte da cidade em um grande acontecimento artístico temporário – eu com minhas poesias em garrafas também –, é certamente um dos atos de disputa do espaço público mais emblemáticos que experienciei.

3. Referências

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

CAMPOS, Martha Machado. Arte na cidade: da paisagem às dinâmicas urbanas. Arte na Cidade. 2006.

GOMES, Priscyla. Por uma estética radicante: deslocamento, experiência e cidade. Estudos Avançados. N. 31. 2017.

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz (org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

Comentários

  1. Parabéns pela ótima reflexão e texto sobre o acontecimento Cuiabá 300 Sobrinhas!!

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