Arte, Deriva, Vazio: Intervenções Coletivas como formas de ir ao encontro para remontar/desmontar a paisagem urbana




Gabriel Ap. Anizio Caldas
Aluno Especial do Programa de Doutorado  ECCO ( gabriel_anizio_caldas@hotmail.com)


Trazendo a ideia de que a cidade é o retrato da composição da vida social, e com o passar dos anos ela pode ser remontada/desmontada, já que ela adquire características e dinâmicas das pessoas que lhe habitam, pode-se dizer que as cidades contemporâneas sofrem modificações em suas estruturas e, também, na forma como as pessoas se relacionam dentro de seu espaço urbano.
No presente ensaio iremos abordar aspectos da cidade de Cuiabá, Capital do Estado de Mato Grosso, que completou 300 (trezentos anos) no dia 08 de abril de 2019, em relação a alguns espaços urbanos e como uma intervenção urbana, capaz de quebrar a rotina do cotidiano, pode ser capaz de ocupar e sinalizar o vazio deixado, com o objetivo de remontar a paisagem, com objetivo comum, ou seja, na forma de união para cuidar de um todo.
Nessa perspectiva, se faz necessário destacar que no dia 13 de abril de 2019, foi realizada uma intervenção urbana denominada “Cuiabá 300 sombrinhas”, ligada ao Programa de Pós-Graduação de Estudos de Cultura Contemporânea, da Universidade Federal do Estado de Mato Grosso (UFMT), com o objetivo de realizar uma reflexão entre a ação coletiva, o conteúdo teórico e os acontecimentos do evento.
A intervenção urbana fora denominada como “Cuiabá 300 sombrinhas” como uma forma de crítica/reflexão em decorrências das “comemorações” dos 300 anos da cidade e ainda devido a sua ausência de sombra, árvores e paisagens verdes, pois ao longo dos anos o que se pode notar foi um crescimento inconsciente e inadequado da cidade, que deixou de zelar pela condições adequadas, ou seja, as sombrinhas simbolizam a própria sombra, tão escassa na cidade, tornando difícil, inclusive, o seu caminhar de maneira adequada.
Na experiência realizada, os integrantes, convidados e transeuntes que aderiram ao movimento, caminharam por um roteiro previamente definido, com aspectos históricos, culturais em contextos urbanos ligados ao passado, presente e, provavelmente, ao futuro, visto que por onde se caminhou já ocorreram inúmeras montagens, remontagens e desmontagens da paisagem.
Neste diapasão, cabe elucidar que: 
Os deslocamentos elegem e configuram o espaço urbano como meio, local onde se desenrolam as experiências mais diversas, das quais se captam fragmentos. Composta por multiplicidades, a cidade contemporânea é sinônimo de movimentação, mobilidade, como processo de criação artística. Deslocar-se é, de acordo com essa concepção particular, estar sujeito ao risco da surpresa e pôr em jogo o modo de ver, abordar e se aproximar. (GOMES, 2017, p. 144).
Essa caminhada com as sombrinhas, constitui uma quebra da rotina cotidiana, pois os participantes caminham a pé, contemplando, observando, analisando, criticando os espaços que normalmente não observam, envolvendo-se com o desvio e observando lugares tidos como “vazios”.
Nesse sentido Careri (2002, p. 237), aduz que:
Os vazios são parte fundamental do sistema urbano e são espaços que habitam a cidade de modo nômade, deslocam-se sempre que o poder tenta impor uma nova ordem. São realidades crescidas fora e contra aquele projeto moderno que ainda é incapaz de reconhecer os seus valores e, por isso, de associar-se a eles.
Nesta perspectiva, caminhou-se por espaços urbanos históricos como a Praça da Mandioca, que fora reconfigurada por diversas vezes ao longo da sua história, por ruas onde existem vários casarões antigos, sendo que, inclusive, alguns deles encontram-se de certa forma esquecidos, com péssimo estado de conservação, fato este que nos faz refletir sobre o abandono de elementos históricos da cidade cuiabana.
No aspecto de questionamento dos espaços da cidade, fora observado as ruínas de prédios localizados na Avenida Coronel Escolástico, próximo à Igreja do Rosário, que demonstram a nossa civilização no seu devir inconsciente e múltiplo, sendo que essas questões urbanas não estão apenas à espera de serem preenchidas de coisas, mas são espaços que necessitam ser preenchidos de significados, como uma cidade paralela com dinâmicas e estruturas próprias que ainda devem ser compreendidas. (CARERI, 2002).
Nesse sentido, ao sair do posto de observador passivo e integrar a caminhada, algo inesperado e imprevisível acabou por ocorrer durante a jornada do caminhar, visto que no meio dos destroços e das ruínas pode ser observado uma sombrinha vermelha com pequenas bolas brancas, o que fez gerar a reflexão de que o “vazio” pode apresentar diversas identidades. Assim, o caminhar como arte do encontro acabou por ocupar um espaço abandonado, onde, justamente, havia uma sombrinha no meio das ruínas, fato que pode ser interpretado como a mais pura e lógica remontagem da paisagem, visto que em um grupo que representando por “300 sombrinhas” teve, coincidentemente, o seu maior símbolo exposto em um espaço vazio.

Sombrinha no vazio
Fonte: própria

Ainda no que diz respeito ao trajeto realizado, nele constava a Igreja Nossa Senhora do Rosário/ São Benedito, marco de história e cultura da cidade de Cuiabá, construída por volta de 1730, por um grupo de escravos, denominado “ Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Cuiabá”. 
Nesse contexto, ocorreu uma encenação, que retratou os resquícios da escravidão, como uma forma de preconceito e dificuldades enfrentadas pela população negra até os dias atuais, que foi muito bem sintetizada com a fala: “A carne mais barata no mercado é a Carne Negra”.
No desfecho da apresentação, foi feita uma menção ao recente acontecimento, no qual um músico negro foi cruelmente morto, após ter seu carro alvejado por mais de 80 (oitenta) tiros vindo de militares do exército no Rio de Janeiro, que findou com o artista caindo aos pés da porta da igreja abrindo a mesma, o que surpreendeu as pessoas que estavam dentro.
Tal fato, pode ser explicado com o auxílio, do autor Bourriaud (2011, p. 13) ao dizer que “ quando obras de arte oriundas de trajetos são exibidas, elas oferecem ao público “uma visão positiva do caos e da complexidade”, uma “experiência positiva de desorientação”.



Encenação em frente à Igreja
Fonte: Própria

Diante do exposto, de acordo com AZEVEDO, “ a intervenção urbana, interrompe o fluxo da padronização e do estigma, propõe outra forma de olhar e pensar sobre os espaços urbanos; instiga a participação, potencializa a criatividade dos sujeitos envolvidos no processo”.
Sendo assim, é possível dizer, que a caminhada “Cuiabá 300 sombrinhas” proporcionou a reflexão acerca de inúmeros aspectos sociais e estruturais para que a cidade possa ser olhada, gerida, idealizada, com mais atenção e cuidado, de forma a proporcionar que as pessoas vivenciem a cidade da melhor forma possível, com a sensação de plenitude.

Referências:
AZEVEDO, M. T. O. Sombras que passeiam: poéticas urbanas, subjetividades contemporâneas e modos de estar na cidade. In: Revista Magistro.

BOURRIAUD, N. Formas de vida: a arte moderna e a invenção de si. Trad. Dorothée de Bruchard. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

CARERI, F. Walkscapes, o caminhar como prática estética. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2013.

GOMES, P. Por uma estética radicante: deslocamento, experiência e cidade. In: Estudos Avançados, 2017.

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